Tempo é surreal.
Ele se arrasta e espira quando frita um ovo e a gema é um olho ciclope pronto pra devorar as horas.
Minha percepção do tempo é a ultima formiga do formigueiro, talvez a última guerreira da terra. O tempo é uma folha dez vezes maior, mais pesada e amarela que a própria formiga solitária e noite de outubro.
- Oi.
O tempo assume forma, quando ela chega devagar.
Leve como as folhas, pesada como o próprio ar.
Dez vezes maior que a timidez
Dez vezes mais solitária e dez vezes mais bela
Que a minha própria timidez amarela
Ou da dela de dizer “ola”
Doce e abençoada chuva de verão. Um alivio imediato, os olhos, doce chuva de verão.
- Ola.
O silencio é um buraco no tempo.
Um réptil, de escamas duras como as portas do inferno.
Se arrasta na escala dos segundos. Um silencio surreal.
- É melhor não se sentar ai... Formigas, elas estão em toda parte.
- Ai, eu vejo o formigueiro, mas não vejo formiga alguma.
- Acho que a ultima acabou de entrar... Dei a ela uma carona.
- Uma carona? Como assim?
- Ela carregava uma folha, dez vezes maior e mais pesada que a própria vida. A peguei na palma da mão, pensei, a vida pode ser dura, coloquei-a no formigueiro.
- Fez um bom trabalho.
Um pequeno esforço pra não rir.
Não tinha planejado aquilo, de modo que a conversa seguia um rumo cada vez mais estranho.
- Sabe, faz dois anos que pegamos o ônibus nesse mesmo ponto e nestes dois anos nunca falamos um com o outro. Quando nos falamos, falamos de formigas.
Ela riu.
- Pare para pensar um minuto, já pensou como deve ser um formigueiro por dentro?
- Nossa, eu fico imaginando como deve ser e... Quando chove eu fico pensando... Como elas fazem? A água não entra no formigueiro?
- Então... Já pensei nisso antes, é muito estranho e... Meu Deus! Ainda estamos falando de formigas.
Rimos.
- Lembro que quando estava na segunda serie, minha professora pediu para a classe escrever uma redação sobre animais. E que animal gostaríamos de ser.
- E qual você escolheu?
- Não me lembro.
Não sei por que disse aquilo... Nunca tinha feito tal redação.

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