sábado, 31 de outubro de 2009

Mentira

Existem varias coisas que eu não sei fazer ou faço muito mal. Eu não sei dançar, canto mal, e não tenho o menor talento na maioria dos esportes, mas uma coisa que eu não sei mesmo é mentir. Não estou dizendo que isso seja uma virtude minha, é que não sei mentir mesmo. Eu até gostaria de saber.

Lembrei Platão quando falava de Odisseu e Aquiles com os seus amigos esquisitos.


Eles discutiam quem seria o melhor herói de Homero.


Então se não me engano Hípias afirma que Aquiles seria o melhor heroi, assim como Nestor seria o mais sábio e Odisseu no caso o mais multiforme.


Quando ele diz multiforme ele quer dizer mentiroso, visto que Odisseu usa da mentira como trunfo nas suas conquistas, enganando na maioria das vezes seus inimigos com esperteza, sendo assim menos nobre que Aquiles.


Platão chega à conclusão então que Odisseu, sendo capaz de mentir voluntariamente, por esperteza seria melhor e mais inteligente que os que são incapazes de mentir.

Fingir é fácil, sei lá, mas mentir é muito diferente.
Você pode olhar em meus olhos e saberá muito bem quando estou mentindo mas não quando estou fingindo. Então, como tudo que eu não sei fazer direito eu prefiro nem fazer, menos no caso de cantar, dançar, tocar guitarra e jogar bola, o que acontece depois dos ensaios de domingo.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Animal favorito

Tempo é surreal.

Ele se arrasta e espira quando frita um ovo e a gema é um olho ciclope pronto pra devorar as horas.

Minha percepção do tempo é a ultima formiga do formigueiro, talvez a última guerreira da terra. O tempo é uma folha dez vezes maior, mais pesada e amarela que a própria formiga solitária e noite de outubro.

- Oi.

O tempo assume forma, quando ela chega devagar.

Leve como as folhas, pesada como o próprio ar.

Dez vezes maior que a timidez

Dez vezes mais solitária e dez vezes mais bela

Que a minha própria timidez amarela

Ou da dela de dizer “ola”

Doce e abençoada chuva de verão. Um alivio imediato, os olhos, doce chuva de verão.

- Ola.

O silencio é um buraco no tempo.

Um réptil, de escamas duras como as portas do inferno.

Se arrasta na escala dos segundos. Um silencio surreal.

- É melhor não se sentar ai... Formigas, elas estão em toda parte.

- Ai, eu vejo o formigueiro, mas não vejo formiga alguma.

- Acho que a ultima acabou de entrar... Dei a ela uma carona.

- Uma carona? Como assim?

- Ela carregava uma folha, dez vezes maior e mais pesada que a própria vida. A peguei na palma da mão, pensei, a vida pode ser dura, coloquei-a no formigueiro.

- Fez um bom trabalho.

Um pequeno esforço pra não rir.

Não tinha planejado aquilo, de modo que a conversa seguia um rumo cada vez mais estranho.

- Sabe, faz dois anos que pegamos o ônibus nesse mesmo ponto e nestes dois anos nunca falamos um com o outro. Quando nos falamos, falamos de formigas.

Ela riu.

- Pare para pensar um minuto, já pensou como deve ser um formigueiro por dentro?

- Nossa, eu fico imaginando como deve ser e... Quando chove eu fico pensando... Como elas fazem? A água não entra no formigueiro?

- Então... Já pensei nisso antes, é muito estranho e... Meu Deus! Ainda estamos falando de formigas.

Rimos.

- Lembro que quando estava na segunda serie, minha professora pediu para a classe escrever uma redação sobre animais. E que animal gostaríamos de ser.

- E qual você escolheu?

- Não me lembro.

Não sei por que disse aquilo... Nunca tinha feito tal redação.